Pàgines

16.2.09

Pigmalió o l'intermediari

Victorino Vaz de Caminha preocupou-se em particular com a educação política, filosófica e literária da jovem esposa. Discutiu com ela Proudhom e Mikhail Aleksandrovich Bakunin e depois deu-lhe a ler, em francês, o inevitável Hugo, o terrível Baudelaire, o genial Flaubert, o nosso velho e querido Gautier, o vasto e desordenado Balzac, e mesmo o intolerável Lamartine, os Taine, Goncourt e Michelet. A valente criança leu-los a todos, sobreviveu e fez-se uma mulher lúcida, forte e com opiniões, emfim, uma mulher como é dificil encontrar um homem.

(...)

Eu gostava de o visitar na biblioteca, para o ouvir falar dos livros. A biblioteca estava instalada numa sala alta, espaçosa, com as paredes cobertas por fortes estantes em mogno. A toda volta corria um varandim, apoiado em colunas, de forma a permitir o accesso às estantes mais altas. No tecto, Victorino mandara abrir uma janela redonda, em cúpula, que podia ser cerrada ou descerrada atravês de um sistema mecânico. Ia visitá-lo e ficava a olhar para as lombadas alinhadas nas estantes, tentando descifrar os títulos, muitos em línguas que eu desconhecia, e sonhando com países remotos. Victorino prendia redes às colunas, magníficas redes de dormir, com barandas trabalhadas, e deixava sobre elas os livros que estava a ler. A biblioteca, assim ornamentada, parecia um navio, desses que descem o Amazonas carregados de borracha, de papagaios e de índios, entre Manaus e Belém do Pará.
Estendida numa das redes eu via chegar o crepúsculo, via a luz dourada pousar sobre os livros, ouvia os cães ladrar ao longe, e depois o céu tornar-se negro e fundo e cobrir-se em pouco tempo de uma poeira de estrelas. As estrelas e os livros. O universo, o desconhecido, estava ali, à minha volta, e Victorino era a única pessoa que me podia abrir as portas para aquele mundo: o Mundo.
J. E. Agualusa, Nação Crioula

També, doncs, ser conscient de cada baula de tota cadena de distribució. Ser radical: anar a l'arrel, que digué J. Martí.